Economia de energia: tudo começa em casa

Já sabemos qual é o meio mais rápido e mais barato de frear o aquecimento global: diminuir nosso consumo de energia. Com pouco esforço, a maioria de nós poderia cortar os gastos energéticos em 25% ou mais – beneficiando o planeta e nosso próprio bolso. Portanto, o que estamos esperando?

Há pouco, minha mulher, PJ, e eu começamos um novo tipo de dieta. Os cientistas concluíram que o planeta está se aquecendo num ritmo mais acelerado do que se previa, e que as consequências podem ser trágicas se não reduzirmos a emissão de dióxido de carbono e outros gases associados ao efeito estufa que contribuem para aquecer a atmosfera. Qual é a ajuda que cada um de nós pode dar? Com o crescimento explosivo das emissões na China, na Índia e em outros países em desenvolvimento, as medidas individuais de contenção de energia resultam de fato em alguma diferença?

Decidimos fazer uma experiência. Durante um mês monitoramos nossas emissões pessoais de dióxido de carbono (CO2). Adotamos uma dieta rígida. Em média, uma família americana produz cerca de 70 quilos de CO2 por dia ao realizar coisas corriqueiras como ligar o ar-condicionado ou andar de carro. Isso é mais que o dobro da média europeia e quase o quíntuplo da média mundial, em grande parte porque os americanos usam o automóvel em demasia e vivem em casas maiores. Mas ainda permanecia uma dúvida: quanto deveríamos tentar reduzir?

Para saber isso, conversei com Tim Flannery, autor de The Weather Makers: How Man Is Changing the Climate and What It Means for Life on Earth (“Os fazedores de clima: como o homem está alterando o clima e o que isso significa para a vida na Terra”). No livro, ele desafia os leitores a fazer cortes em suas emissões pessoais para que o planeta não atinja limites críticos. “Para ficarmos aquém desse limiar irreversível, precisamos cortar 80% das emissões de CO2″, diz.

Serei franco: essa meta, para mim, parecia inviável. Mesmo assim, o principal era responder a uma pergunta simples: quão próximos conseguiríamos chegar a um modo de vida compatível com a capacidade de renovação do planeta? Concordamos que iríamos tentar chegar a 80% menos que a média americana, o que implicava uma emissão diária de apenas 14 quilos de CO2. Em seguida fomos ver se algum vizinho teria interesse em nos acompanhar nessa dieta.

Kyoko e John Bauer eram candidatos óbvios. Ambientalistas entusiásticos, já estavam comprometidos com um modo de vida de baixo impacto. Um carro, uma televisão, nenhum tipo de carne além da de peixe. Pais de gêmeos de 3 anos de idade, estavam preocupados com o futuro. “Pode contar com a gente”, disse John.

Por outro lado, Susan e Mitch Freedman eram pais de dois adolescentes. Susan não tinha certeza de como iriam encarar esses cortes bem nas férias de verão. Mitch é arquiteto, e estava trabalhando no projeto de um edifício comercial de consumo energético mais e9 ciente. Por isso, mostrou-se curioso para saber quanto de energia conseguiriam economizar em sua casa. Os Freedman, portanto, também iam participar.

Começamos a dieta num domingo de julho, um dia ameno na região em que moramos, no norte do estado da Virgínia, perto de Washington, DC. Eu abrira as janelas de nosso quarto para que a brisa entrasse. Estávamos tão acostumados a deixar o ar-condicionado ligado o tempo todo que eu quase havia me esquecido de que as janelas podiam ser abertas. Às 5 da madrugada, os passarinhos nos acordaram com simpática algazarra, despontaram os primeiros raios de sol e teve início nosso experimento.

O primeiro desafio foi achar uma maneira de converter atividades corriqueiras em quilos de CO2. PJ prontificou-se a fazer a leitura matinal do relógio de luz e verificar todos os dias o odômetro do Mazda Miata, um dos nossos dois carros. Eu anotaria a quilometragem do Honda CR-V e leria o medidor de consumo de gás natural. Assim, passamos a registrar os valores em uma tabela, fixada à porta de um dos armários, na cozinha. Um litro de gasolina, logo ficamos sabendo, lançava substanciais 2,34 quilos de CO2 na atmosfera. Um quilowatt-hora (kWh) de eletricidade, nos Estados Unidos, requer a emissão de 700 gramas de CO2.

Para ter uma ideia das nossas emissões normais de CO2, coloquei o valor das contas recentes de serviços em vários calculadores existentes na internet. De acordo com o órgão de proteção ambiental americano, a Environmental Protection Agency (EPA), nossa emissão anual de CO2 chegava a 24 618 quilos, 30% a mais que uma residência americana média com duas pessoas. O principal culpado era a energia que gastávamos para aquecer e resfriar a casa. Na maioria das famílias, só o aquecedor de água responde por 12% de todo o consumo de energia da casa.

Quando PJ saiu com o Honda CR-V para pegar uma amiga, aproveitei para tirar da garagem a tralha que uso para cuidar do jardim: cortador de grama e soprador de folhas, todos elétricos. Ocorreu-me que o uso de todos esses gulosos equipamentos de energia iria fazer um estrago em nossa conta. Por isso, guardei tudo de volta, entrei no nosso Miata e acelerei pela rua até uma loja Home Depot com a intenção de comprar um antiquado cortador de grama manual.

Como não havia modelos em estoque, percorri outros tantos quilômetros até a Lawn & Leisure, uma loja especializada. Também ali só se viam cortadores que mais parecem pequenos tratores. (O cortador a gasolina empurrado emite tanta poluição por hora quanto 11 carros; já o cortador-trator polui o equivalente a nada menos que 34 carros.) Minha parada seguinte, também em vão, foi no Wal-Mart. Por m, tentei a Sears, e lá encontrei um cortador manual. Era decepcionante: parecia um trambolho desajeitado se comparado a meu modelo elétrico com o, o qual manobro com uma das mãos. Entrei no carro de mãos vazias e voltei para casa.

Ao desligar o motor, comecei a me dar conta da tolice que acabara de fazer. Eu havia percorrido 39 quilômetros em busca de um cortador de grama mais ecológico. PJ dirigira por 43 quilômetros para visitar um amigo. Também havíamos consumido 32 kWh de eletricidade e quase 3 metros cúbicos de gás para preparar o jantar e secar as roupas. A conta final foi péssima.Total da emissão de CO2 naquele dia: 47,9 quilos. Três vezes e meia mais que o nosso objetivo.

Na segunda semana, recebemos a ajuda de Ed Minch, da empresa Energy Savings Group. Pedimos a ele que fizesse um “diagnóstico energético” da residência e visse se havíamos deixado passar problemas corrigíveis. Primeiro ele andou em volta de toda a casa. O arquiteto e o empreiteiro tinham adotado soluções que permitiam entrada e saída de ar? Depois ele fez uma vistoria no interior usando um dispositivo infravermelho para examinar as divisões internas. Um local quente ou frio poderia indicar problemas no encanamento ou alguma falha na insulação das paredes. Por fim seus assistentes instalaram um potente exaustor na porta de entrada a fim de reduzir a pressão do ar no interior e forçar o ar através de quaisquer frestas que existissem na estrutura da casa. De acordo com os instrumentos, ela estava 50% menos vedada que o normal.

Um dos motivos era que o empreiteiro havia feito um buraco estreito e retangular no alicerce sob a lavanderia. E as folhas do quintal acabavam entrando pelo buraco no espaço entre a casa e as fundações. “Aí está o maior culpado”, disse Minch. “É como se fosse uma janela aberta.” O fechamento daquela cavidade tornou-se então prioritário, pois o aquecimento chega a responder por metade dos custos de energia de uma residência – já o resfriamento de uma casa representa até um décimo dessa despesa.

Ele também nos deu algumas dicas a respeito da iluminação e dos eletrodomésticos. “Uma cozinha típica tem hoje uma dezena de lâmpadas incandescentes de 7fiwatts ligadas o dia todo”, comentou. “Isso é um enorme desperdício de dinheiro.” A troca dessas lâmpadas convencionais por fluorescentes compactas pode representar uma economia de 200 dólares por ano.

De maneira geral, logo vi que não há escassez de dicas para cortar as emissões de CO2. Mesmo antes da visita de Minch, reuni pilhas de folhetos e brochuras de organizações ambientalistas e companhias de eletricidade, água e gás. Em certo sentido, há até informação demais. “Não dá para arrumar tudo de uma só vez”, falou John Bauer quando indaguei como ele e Kyoko estavam se saindo. “Quando viramos vegetarianos, não foi de um dia para o outro. Primeiro eliminamos o cordeiro. Daí a carne de porco. Depois a de vaca. Por fim a de frango. E já faz anos que estamos reduzindo peixes e frutos do mar. Acho que deveria ser assim com uma dieta de carbono.”

Um bom conselho, sem dúvida. Mas, para onde quer que eu olhasse, via coisas devorando energia. Uma noite, sentei-me na cama sem acender a luz e contei nada menos que dez luzinhas: carregador do celular, calculadora de mesa, notebook, impressora, rádio-relógio, decodificador de TV a cabo, recarregador de bateria, base do telefone sem fio, detector de fumaça. Segundo um estudo, a energia “vampirizada” por aparelhos eletrônicos em modo de espera pode chegar a 8% da conta de eletricidade de uma casa. O que mais eu deixara de levar em conta?

Nessa altura do experimento, saímos de casa, em um fim de semana prolongado, para ir ao casamento de minha sobrinha, Alyssa, no estado do Oregon. Eu sabia que aquela viagem não ajudaria em nada a nossa dieta de carbono. Mas a final o que é mais importante: reduzir as emissões de CO2 ou participar de uma celebração familiar?

Esta é uma questão crucial: que importância têm os esforços individuais para diminuir as emissões? Será que nossas contribuições somadas são significativas ou apenas servem para acalmar nossa consciência? Eu ainda não tinha certeza. Logo que voltamos para casa, na Virgínia, passei a recolher mais dados.

Descobri que os Estados Unidos são responsáveis por um quinto de todas as emissões de CO2 no planeta, lançando na atmosfera cerca 6 bilhões de toneladas por ano. A maior parte desse CO2 vem da energia consumida por edifícios, veículos e indústrias. Quanto CO2 poderia ser evitado, comecei a me perguntar, se o país todo passasse a fazer uma dieta de carbono?

São os edifícios, e não os carros, os responsáveis pela maior parte das emissões de CO2 nos Estados Unidos. Residências, shopping centers, armazéns e escritórios respondem por 38% das emissões do país, sobretudo em função do uso de eletricidade. E não ajuda nada o fato de que, nos Estados Unidos, toda casa nova é, em média, 45% maior que há 30 anos.

No caso dos edifícios dos Estados Unidos, reformas e projetos inteligentes poderiam reduzir as emissões em até 200 milhões de toneladas de CO2 por ano. Mas é pouco provável que os americanos consigam tais ganhos se não forem aprovados novos códigos de construção, especificações dos equipamentos e incentivos financeiros. Há razões demais para não se fazer nada: os proprietários de edifícios comerciais, por exemplo, têm poucos motivos para gastar em melhorias como janelas, iluminação e sistemas de aquecimento ou resfriamento mais eficientes, pois cabe aos inquilinos, e não aos proprietários, pagar as contas de luz. No caso dos proprietários de residências, a e/ ciência energética sempre é esquecida quando o dinheiro fica curto.

Depois dos edifícios, os transportes são a segunda maior fonte de CO2 – 34% das emissões do país. O Congresso conclamou as indústrias automobilísticas a melhorar em 40% os padrões de economia de combustível até 2020. Mas as emissões vão continuar a crescer, pois a quantidade de quilômetros percorridos em carros só faz aumentar. E isso ocorre porque os incorporadores continuam a abrir condomínios residenciais cada vez mais distantes do centro das cidades, tornando inevitável que as pessoas passem horas por dia em seus carros. As emissões de gases do efeito estufa por veículos podem aumentar até 80% nos próximos 50 anos.

A terceira maior fonte de CO2 no país é o setor industrial. Refinarias, fábricas de papel e outros tipos de atividade industrial respondem por 28% de todas as emissões americanas.

Vários conglomerados, como a Dow, a Dupont e a 3M, já comprovaram quão lucrativa pode ser a economia de energia. Desde 1995, a Dow já poupou 7 bilhões de dólares graças à redução de seu índice de “intensidade energética” – quantidade de energia consumida por quilo de produto – e, nas últimas décadas, conseguiu cortar 20% de suas emissões de CO2. Para orientar as empresas, várias equipes de especialistas do Departamento de Energia (DOE) americano visitam todos os anos cerca de 700 fábricas, onde examinam equipamentos e procedimentos. Mesmo quando as dicas dos especialistas não implicam nenhum gasto – como “desligar a ventilação em ambientes vazios” –, só menos de metade de tais alterações acaba sendo adotada.

Seja como for, as mudanças estão a caminho. A maioria dos líderes empresariais espera por regulamentação federal das emissões de CO2 no futuro próximo. Portanto, o que se conclui desses números? Que quantidade de CO2 poderíamos evitar se todo o país adotasse uma dieta de baixas emissões? Segundo a empresa de consultoria McKinsey & Company, os Estados Unidos poderiam evitar 1,3 bilhão de toneladas de emissões de CO2 por ano usando apenas tecnologias preexistentes, que iriam se pagar com a poupança decorrente. Em vez de aumentar mais 1 bilhão de toneladas até 2020, as emissões anuais do país diminuiriam cerca de 200 milhões de toneladas a cada ano. Ou seja, já sabemos como congelar as emissões caso haja interesse nisso.

Por volta da última semana de julho, PJ e eu estávamos afinal nos acostumando com um modo de vida baseado em emissões restritas de carbono. Caminhávamos até a piscina comunitária em vez de usar o carro, íamos de bicicleta até a feira e ficávamos na varanda até escurecer, conversando em meio ao trilar dos grilos. Sempre que possível eu trabalhava em casa e, quando tinha de ir à cidade, recorria ao ônibus e ao metrô. Mesmo quando o tempo ficou quente e úmido, como costuma ser em julho na Virgínia, não chegamos a passar nenhum desconforto, em parte graças ao enorme ventilador instalado no teto de nosso quarto no fim de junho.”Este ventilador agora é meu melhor amigo”, disse PJ.

E, de fato, nossos números eram bastante animadores quando cruzamos a linha de chegada, em 1o de agosto. Em comparação com o mês de julho do ano anterior, conseguimos reduzir 70% do consumo de eletricidade; 40% do de gás natural; e os quilômetros que percorremos de carro ficaram em torno de metade da média nacional. Restringimos nossas emissões de CO2 a uma média de 32 quilos por dia: embora fosse o dobro do que queríamos como meta, ainda assim era metade da média nacional.

Eram resultados excelentes, pensei comigo, mas aí tive de incluir as emissões provocadas por nossa viagem aérea até o Oregon. Jamais imaginaria que uma aeronave moderna e repleta de passageiros emitisse quase metade do CO2 per capita que PJ e eu teríamos produzido se tivéssemos ido e voltado de carro do Oregon em nosso Honda CR-V. O voo de ida e volta acrescentou o equivalente a 1 13fiquilos de CO2 à conta final, mais que dobrando a nossa média diária, de 32 para 68 gramas de CO2 – cinco vezes a meta original. Ponto negativo para as viagens aéreas.

Em comparação, os Bauer saíram-se bem melhor, ainda que também tenham topado com problemas. Kyoko tentara reduzir o uso da secadora pendurando a roupa em varais no lado de fora da casa, como ela e John costumavam fazer quando viviam no árido oeste da Austrália. Mas, por causa dos ativos gêmeos de 3 anos, Etienne e Ajanta, Kyoko teve de pendurar até 14 bateladas de roupas molhadas por semana, que levavam o dia todo para secar no ar úmido da Virgínia. “Não foi tão prático”, contou ela. “Algumas vezes tive de sair correndo do shopping quando havia ameaça de chuva.” Seja como for, conseguiram chegar a 44,2 quilos de CO2 por dia.

Já para os Freedman, o uso dos carros mostrou-se um obstáculo significativo. Com quatro automóveis em casa e todos indo e voltando do trabalho diariamente, eles acumularam 7,3 mil quilômetros durante um único mês. “Não tenho ideia de como poderíamos rodar menos”, disse Susan. “Cada um de nós vai para uma direção diferente, e não há outra maneira de chegar a esses lugares.” Com isso, o resultado deles ficou em 112,5 quilos de CO2 por dia.

Quando recebemos a conta de eletricidade de julho, PJ e eu vimos com satisfação que nosso esforço havia redundado em uma poupança de 190 dólares. Decidimos então usar parte desse dinheiro adicional para compensar as emissões da viagem aérea. Depois de algumas pesquisas, resolvi contribuir com 50 dólares para a Native Energy, uma das várias empresas voltadas para redução de CO2 por meio de investimentos em usinas eólicas e solares e outros meios de produção de energia renovável. Nossa contribuição foi suficiente para contrabalançar 1 tonelada de emissão de um avião a jato, pouco mais do que havíamos gasto no voo até o Oregon.

Poderíamos fazer ainda mais, é claro. “Se houver pessoas empenhadas em um número significativo de comunidades, o impacto será enorme”, diz David Gershon, autor do livro Low Carbon Diet: a 30-Day Program to Lose 5,000 Pounds (“Dieta de pouco carbono: um programa de 30 dias para perder 2 500 quilos”). “Quando conseguem algum resultado, as pessoas dizem: ‘Uau, quero fazer mais. Agora lutarei por mais transportes coletivos, ciclovias, coisas assim’.”

Mas fará alguma diferença? Isso é o que, no fim das contas, todo mundo quer saber. Nossa dieta de restrição de carbono mostrou que é possível cortar pela metade as emissões diárias de CO2 – sobretudo com a economia de energia em casa e nos deslocamentos em veículos. Esforços similares, de âmbito nacional, em edifícios comerciais, shopping centers e indústrias, associados a incentivos e à melhoria dos padrões de eficiência, poderiam até mesmo interromper o crescimento das emissões nos Estados Unidos.

Mas tudo isso ainda não é suficiente. O mundo enfrentará problemas graves a menos que todo o planeta reduza drasticamente as emissões de carbono – e elas cresceram 30% desde 1990. Estima-se que até 80% da demanda por novas fontes energéticas venha da China, da Índia e de outros países em desenvolvimento. Os chineses estão construindo o equivalente a duas usinas termelétricas médias a carvão por semana e, em 2007, sua produção de CO2 superou a dos Estados Unidos. As economias dos países em desenvolvimento crescem em ritmo mais acelerado.

No final, porém, a busca de e ciência energética também tem seus limites. Para chegarmos às reduções necessárias, como aconselha Tim Flannery (80% até 2050; ou mesmo 100%, como passou a propor), será indispensável substituir logo os combustíveis fósseis pela energia renovável das usinas eólicas e solares, por fontes geotermais e pelos biocombustíveis. Precisamos diminuir o ritmo do desmatamento, que é outra fonte de gases do efeito estufa – na conta global da emissão anual média de CO2, a derrubada da Amazônia contribui de maneira alarmante para comprometer os bons índices de consumo de energia dos brasileiros. E também será essencial aperfeiçoar tecnologias para a captura e o sequestro do dióxido de carbono produzido nas atuais usinas de eletricidade. O uso mais eficiente da energia pode nos proporcionar tempo – talvez até duas décadas – até descobrirmos como eliminar o carbono da dieta mundial.

Os outros países não estão esperando que os Estados Unidos mostrem o caminho. A Suécia é pioneira na construção de casas neutras em termos de emissões; a Alemanha estimula a produção de painéis solares de baixo custo; o Japão é conhecido por seus carros econômicos; o Brasil lidera a produção de veículos movidos a etanol; e as prósperas cidades da Holanda estão repletas de bicicletas. Será que os americanos terão vontade suficiente para fazer o mesmo?

Talvez seja possível, diz R. James Woolsey, exdiretor da CIA. Ele também vê o surgimento de nova e poderosa aliança em torno da e ciência energética. “Algumas pessoas são a favor disso porque vislumbram ganhar dinheiro; outras porque estão preocupadas com o terrorismo e o aquecimento global; e outras ainda porque acreditam que se trata de dever religioso”, diz ele. “Mas todas estão confluindo à mesma posição, e os políticos já passaram a notar a tendência.”

Esse movimento começa em casa com a troca de um tipo de lâmpada por outro, com a janela que é aberta em vez de se ligar o ar-condicionado, com uma caminhada até o ponto do ônibus ou um passeio de bicicleta até a agência dos Correios. PJ e eu fizemos isso apenas durante um mês, mas deu para notar que não é nada difícil tornar um hábito essa dieta de pouco carbono.

“E o que temos a perder com isso?”, diz PJ.

O exemplo do Brasil

Antes mesmo que o mundo ficasse alerta contra as emissões perigosas de CO2 e discutisse formas de consumo inteligente de energia, muitos brasileiros já haviam decidido economizar. Não foi exatamente uma opção. Com o temor de grandes blecautes, como os que ocorreram em 1999, o governo federal passou a organizar campanhas de racionamento de energia elétrica. Assim, aos poucos, as pessoas adotaram lâmpadas fluorescentes e reduziram o tempo no banho.

Hoje essas atitudes individuais, aliadas a fatores como clima ameno ou tamanho reduzido das residências, fazem com que o consumo energético do brasileiro gere um impacto ambiental bem menor que o dos países desenvolvidos. Em 2005, o Brasil despejou 1,1 bilhão de toneladas de CO2 na atmosfera – número que, por si, coloca o país em quinto lugar na lista dos maiores emissores globais de gases do efeito estufa. Mas cerca de 70% das emissões são oriundas do desmatamento da Amazônia. Não fosse por isso, cada brasileiro seria responsável por 4 toneladas de CO2 por ano – número abaixo que o casal Peter Miller e PJ tentou atingir em sua “dieta” de carbono nos Estados Unidos -, sendo considerado o povo de hábitos mais sustentáveis do planeta, como atesta o índice Greendex, elaborado em 2008 pela National Geographic Society em parceria com a empresa de sondagens GlobeScan. A inédita pesquisa, que mediu o comportamento de mil pessoas em 14 países, considerou elementos como habitação, transporte, alimentação e uso de bens de consumo.

De fato, em relação a outros países, o consumo per capita de energia no Brasil é baixo. Um quarto de toda a eletricidade gerada segue para uso residencial – 48% vai para a indústria e o restante é distribuído entre os setores comercial, público e rural. Uma família típica de classe média com cinco pessoas, por exemplo, usa energia elétrica no dia a dia com iluminação, aquecimento de água, refrigeração e força motriz para equipamentos eletrodomésticos. Tudo isso requer um consumo mínimo de 220 quilowatts-hora por mês – cujo baixo valor é favorecido pela matriz energética brasileira.

Graças à geografia rica em bacias hidrográficas, 85% do território nacional é abastecido por hidrelétricas. Se comparada com as fontes predominantes no mundo – termelétrica e nuclear -, a taxa de emissão em geral é baixa, de apenas 6 gramas de CO2 por quilowatt-hora consumido. Embora também, dependendo da localização da usina, o metano, outro gás do efeito estufa ainda mais potente que o dióxido de carbono, pode ser liberado. Mas a maior ameaça ao equilibrado uso de energia é a expansão do número de consumidores segundo pesquisa da Fundação Getúlio Vargas. Hoje, 100 milhões de pessoas são consideradas de classe média – 52% da população (contra 44% em 2002) com renda mensal familiar entre 1 065 e 4 591 reais. Esse grupo aumentou a procura por eletrodomésticos e automóveis, cujas vendas são garantidas pela grande oferta de crédito.

Ainda assim, grande parte da população brasileira parece agora estar mais consciente do problema de aquecimento global e se dispõe a fazer algo – 84% das pessoas ouvidas por um estudo recente do Instituto Akatu para Consumo Consciente. “Mas tudo isso só será possível se houver uma mudança no estilo de vida da sociedade”, avalia Helio Mattar, diretor-presidente do instituto. “Em um cenário ideal, o consumo deve ser apenas um instrumento de bem-estar, e não indicador de status.”

Fonte: National Geographic